A necessidade de conseguir dinheiro para continuar apostando leva parte dos jogadores a adotar ou considerar atitudes que podem ampliar os prejuízos financeiros e provocar conflitos familiares. Entre os apostadores brasileiros, 28% afirmam já ter recorrido ou pensado em recorrer a alguma medida extrema para obter recursos destinados aos jogos online.
Os dados são da pesquisa “Apostas Online: entre o prazer do jogo e o risco financeiro”, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas.
Pegar dinheiro emprestado é a atitude mais mencionada, citada por 12% dos apostadores. Outros 8% afirmam ter vendido ou considerado vender bens sem o consentimento da família, enquanto a mesma proporção admite ter usado ou cogitado utilizar cartões de terceiros sem autorização.
Os comportamentos mostram que, em alguns casos, o dinheiro disponível no próprio orçamento deixa de ser suficiente para sustentar as apostas. A partir desse momento, o jogador passa a buscar recursos que pertencem a outras pessoas, comprometer o patrimônio familiar ou assumir novas dívidas.
Empréstimo pode prolongar prejuízo
A contratação de empréstimos para apostar cria um risco adicional porque transforma uma perda imediata em uma obrigação futura. Mesmo que o valor seja perdido durante o jogo, as parcelas, os juros e os demais encargos continuam pesando no orçamento.
A situação pode se agravar quando o empréstimo é encarado como uma tentativa de recuperar valores perdidos anteriormente. Em vez de interromper o ciclo, o novo recurso permite continuar apostando e aumenta a exposição financeira.
O levantamento mostra que a expectativa de ganhar dinheiro fácil e rápido é a principal motivação para começar a apostar, citada por 31% dos jogadores. Outros 15% afirmam ter ingressado nas plataformas com o objetivo de pagar dívidas.
Essa relação entre apostas e dificuldades financeiras merece atenção. Quando o jogo é tratado como uma alternativa para resolver contas atrasadas, o consumidor pode assumir riscos maiores e insistir por mais tempo na expectativa de obter um resultado capaz de compensar os prejuízos.
Patrimônio e confiança familiar entram em risco
A venda de bens sem conhecimento ou autorização da família, mencionada por 8%, amplia o impacto das apostas para além do jogador. Objetos adquiridos com recursos compartilhados ou utilizados por outras pessoas da casa podem ser transformados em dinheiro sem que todos os envolvidos concordem com a decisão.
O mesmo ocorre com o uso de cartões de terceiros sem autorização, também citado por 8%. Além de criar uma dívida em nome de outra pessoa, essa prática pode comprometer limites de crédito, gerar cobranças inesperadas e abalar relações de confiança.
Os reflexos financeiros já aparecem em outros indicadores da pesquisa. Um em cada quatro apostadores deixou alguma conta sem pagar para usar o dinheiro nos jogos, enquanto 24% afirmam já ter ficado com o nome negativado por causa das apostas.
Além disso, 43% abriram mão de algum consumo cotidiano para continuar jogando. Entre as despesas afetadas estão internet, contas básicas, passeios em família, vestuário e alimentação fora de casa ou por delivery.
Aposta deixa de ser apenas entretenimento
O gasto médio mensal com jogos online chegou a R$ 213 em 2026, aumento de aproximadamente 14% na comparação com o ano anterior. Ao mesmo tempo, 23% dos apostadores reconhecem já ter utilizado valores que comprometeram a própria renda ou o bem-estar financeiro.
Os números indicam que o problema não pode ser medido apenas pelo total depositado nas plataformas. A origem do dinheiro também é relevante. Quando os recursos vêm de empréstimos, da venda de patrimônio ou do uso não autorizado de cartões, os efeitos podem permanecer por muito mais tempo do que a aposta.
A adoção ou consideração dessas medidas funciona como um sinal de alerta de que o jogador pode estar perdendo a capacidade de manter a atividade dentro dos limites do próprio orçamento. Nessa situação, interromper novos depósitos e buscar apoio financeiro, familiar ou profissional pode ser necessário para impedir que as perdas avancem sobre dívidas, patrimônio e relações pessoais.