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Varejo S.A.

Perdas no varejo crescem e expõem a urgência de uma prevenção mais inteligente

Índice médio de perdas avançou de 1,51% para 1,65% em 2025, enquanto prejuízo financeiro do setor já alcança R$ 36,5 bilhões, mostrando que a prevenção se tornou uma questão de inteligência operacional

Por Vanessa Urbieta, gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave

Publicado em 7 min de leitura

Eficiência na Prática - Como o checkout se tornou um centro de controle orientado por dados no varejo moderno

As perdas sempre fizeram parte da rotina do varejo. Furtos, erros operacionais, falhas de processos, avarias, vencimentos, rupturas e divergências de inventário acompanham o setor há décadas. O que mudou, no entanto, foi a dimensão do problema e a complexidade das operações nas quais ele está inserido.

Os dados mais recentes apresentados pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas, a Abrappe, mostram que o índice médio de perdas do varejo passou de 1,51% em 2024 para 1,65% em 2025. O movimento interrompe a redução registrada no ano anterior e reforça a necessidade de uma atuação mais estruturada por parte das empresas.

O histórico do indicador ajuda a dimensionar o desafio. Após alcançar 1,21% em 2021, o menor patamar da série apresentada, o índice avançou para 1,48% em 2022 e 1,57% em 2023. Em 2024, houve uma redução para 1,51%, mas o crescimento registrado em 2025 mostra que as perdas permanecem como um problema relevante para o setor.

Além do impacto percentual, o prejuízo financeiro já atingiu R$ 36,5 bilhões, R$ 1,6 bilhão a mais do que no levantamento anterior. Os números deixam um recado claro: a prevenção de perdas não pode ser tratada apenas como uma atividade de segurança ou como uma resposta posterior à ocorrência de um problema. Ela se tornou uma questão de inteligência operacional, diretamente ligada à rentabilidade, à eficiência dos processos e à experiência do consumidor.

Outro dado que chama atenção é a concentração das perdas em três grandes causas: quebras operacionais, furtos — internos e externos — e divergência de estoque. Embora tenham origens distintas, esses problemas compartilham um ponto em comum: podem ser reduzidos por meio de processos mais consistentes, melhor acompanhamento das operações e uso qualificado das informações geradas pelas lojas.

A pesquisa também mostra que cada segmento enfrenta uma realidade própria. Em 2025, as lojas de conveniência apresentaram o maior índice de perdas, com 3,80%, acima dos 3,06% registrados no ano anterior. Na sequência aparecem os mercados de vizinhança, com 3,01%, e os supermercados convencionais, com 2,52%.

Embora mercados de vizinhança e supermercados tenham reduzido seus índices em relação a 2024, quando registravam 3,30% e 2,79%, respectivamente, os percentuais continuam elevados. Nos hipermercados, houve relativa estabilidade, com uma pequena redução de 2,11% para 2,08%.

Outros segmentos registraram movimentos expressivos. Nas perfumarias, o índice avançou de 1,01% para 1,55%. O magazine nacional passou de 1,04% para 1,18%, enquanto o segmento de eletromóveis subiu de 0,16% para 0,58%.

Em sentido contrário, atacados e atacarejos reduziram o índice de perdas de 1,85% em 2024 para 1,43% em 2025. Farmácias e drogarias também apresentaram uma pequena queda, de 1,28% para 1,24%, enquanto materiais de construção recuaram de 1,30% para 1,02%.

Essas diferenças mostram que não existe uma única resposta para a prevenção de perdas. Cada modelo de negócio possui fluxos, produtos, níveis de exposição e vulnerabilidades específicos. Uma loja de conveniência, marcada por alta circulação de consumidores e operações rápidas, enfrenta desafios diferentes dos encontrados em uma farmácia, em um supermercado ou em uma loja de materiais de construção.

Por isso, mais do que observar o índice consolidado, é necessário compreender onde as perdas acontecem, como se manifestam e quais processos estão relacionados a elas. Esse diagnóstico permite que a empresa deixe de atuar apenas sobre os efeitos e passe a identificar as causas dos desvios.

Ter câmeras é suficiente?

A tecnologia já ocupa uma posição importante nas estratégias de prevenção. Segundo a Abrappe, o Circuito Fechado de Televisão, o CFTV, é a ferramenta mais utilizada pelas empresas, presente em 86,9% das operações.

Trata-se de um percentual elevado, que demonstra a preocupação das redes em manter sistemas de monitoramento nas lojas. Ao mesmo tempo, o dado levanta uma pergunta importante: ter câmeras é suficiente?

Embora essenciais, as câmeras sozinhas não resolvem o problema. Quando as imagens dependem exclusivamente da observação humana ou são acessadas apenas depois de uma ocorrência, sua atuação permanece predominantemente reativa.

O principal desafio está em transformar as imagens e os demais dados produzidos pelas operações em informações úteis para a tomada de decisão. É nesse ponto que a tecnologia amplia seu papel, permitindo criar gatilhos automáticos para situações de risco, identificar comportamentos fora do padrão, cruzar informações operacionais e emitir alertas em tempo real.

Essa inteligência modifica a própria função do CFTV. Em vez de servir somente como fonte para investigações posteriores, o sistema passa a apoiar a prevenção, ajudando as equipes a identificar possíveis desvios antes que eles resultem em perdas.

A elevada utilização de ferramentas de Business Intelligence, presentes em 82,8% das operações, mostra que o varejo já avança em direção a uma gestão mais orientada por dados. O BI permite reunir informações de diferentes áreas, acompanhar indicadores, localizar pontos de vulnerabilidade e apoiar decisões mais rápidas.

As antenas antifurto, adotadas por 54,5% das empresas, também permanecem entre as principais tecnologias utilizadas. Além de funcionarem como uma barreira contra a retirada indevida de mercadorias, essas soluções podem ser integradas a outros sistemas, contribuindo para ampliar o controle e a rastreabilidade dos produtos.

Outras ferramentas já começam a complementar essa estrutura. Os relatórios de exceção estão presentes em 40,4% das operações, o reconhecimento facial aparece em 39,4% e os analíticos de vídeo alcançam 35,4%.

Os analíticos de vídeo representam uma evolução importante porque permitem interpretar automaticamente as imagens captadas pelas câmeras. Em vez de exigir o acompanhamento ininterrupto das telas, os sistemas podem reconhecer situações previamente configuradas e direcionar a atenção dos profissionais para os casos que realmente demandam análise.

Os softwares de monitoramento de caixas, utilizados por 27,3% das empresas, também ajudam a identificar cancelamentos, divergências, operações incomuns e outros padrões associados a erros, falhas de processo ou possíveis fraudes.

Soluções mais recentes ainda aparecem em uma parcela menor das operações. As aplicações de inteligência artificial destinadas à identificação de atitudes suspeitas ou furtos são utilizadas por 10,1% das empresas. Sistemas de prevenção de perdas baseados em Internet das Coisas estão presentes em 7,1%, enquanto as ferramentas de IA voltadas à identificação de subescaneamento ou ausência de registro no caixa alcançam 6,1%.

O RFID, adotado por 15,2% das empresas, oferece possibilidades relevantes para rastreabilidade e controle de inventário. Já os sistemas de inventário baseados em inteligência artificial aparecem em apenas 4% das operações.

Esses números demonstram que existe uma distância entre a disponibilidade das tecnologias e sua adoção em escala. Mas essa lacuna não está relacionada apenas ao investimento financeiro. A implantação de uma solução exige integração entre sistemas, qualidade dos dados, processos bem definidos e profissionais preparados para interpretar as informações geradas.

Pessoas e processos continuam no centro da prevenção

A evolução tecnológica não reduz a importância do fator humano. Pelo contrário: quanto maior o volume de dados produzido pelas operações, mais relevante se torna a capacidade das equipes de interpretar os sinais, avaliar os riscos e tomar decisões.

Essas ferramentas não devem substituir pessoas, mas ampliar sua capacidade de atuação. Ao automatizar o monitoramento e direcionar os alertas, elas permitem que os profissionais concentrem esforços nas ocorrências que exigem investigação, análise e intervenção.

Por esse motivo, o investimento em equipamentos e sistemas precisa caminhar junto com a revisão dos processos e a qualificação das equipes. Não basta produzir mais informações se os profissionais não estiverem preparados para compreender os indicadores e transformá-los em ações concretas.

No contexto do ecossistema humano das empresas do varejo, é essencial ampliarmos essa discussão para dois pilares: inclusão e desenvolvimento. Sobre o primeiro fator, enquanto a participação feminina em cargos de liderança no mercado brasileiro gira em torno de 35%, na área de prevenção de perdas esse percentual cai para apenas 15,6%.

Estimular a participação de profissionais com experiências e perspectivas distintas contribui para enriquecer a análise dos problemas e construir respostas mais adequadas à complexidade das operações. A formação de equipes plurais não deve ser tratada apenas como uma questão de representação, mas como um elemento capaz de fortalecer a tomada de decisão.

O varejo já compreendeu que as perdas não representam somente um percentual no balanço. Elas afetam a disponibilidade de produtos, a produtividade das equipes, a eficiência logística, o abastecimento, a experiência do consumidor e a margem das empresas.

O próximo passo é entender que a maturidade de uma operação não deve ser medida pelo número de câmeras, antenas ou sistemas instalados, mas pela capacidade de integrar tecnologia, processos e pessoas para gerar inteligência operacional.

Mais do que registrar o que aconteceu, a prevenção de perdas precisa identificar vulnerabilidades, antecipar riscos e orientar decisões antes que o prejuízo ocorra.

*Vanessa Urbieta é gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave