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Varejo S.A.

Quando o furto só aparece no inventário, a prevenção já falhou

Como a integração de dados e tecnologias pode transformar uma prevenção reativa em uma operação mais responsiva

Por Vanessa Urbieta, gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave

Publicado em 5 min de leitura

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No varejo, uma perda identificada no inventário representa mais do que um produto que não está onde deveria: ela também revela uma oportunidade de prevenção que não foi aproveitada, sobretudo em um cenário de perdas significativas dentro do setor.

Para se ter uma ideia, o varejo brasileiro perdeu R$ 42,1 bilhões em 2025 em decorrência de fraudes, erros e roubos, segundo dados divulgados na última Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro. O valor dimensiona um problema que afeta diretamente a rentabilidade das empresas e reforça a necessidade de tornar a prevenção mais eficiente e estratégica.

Apesar da queda no índice médio de perdas nos últimos anos, cerca de 70% das perdas ainda estão relacionadas a quebras operacionais, furtos internos e externos e erros de inventário. Esses números ajudam a dimensionar o problema, ao mesmo tempo que levantam uma questão operacional importante: em que momento o varejista descobre que uma perda aconteceu?

Quando a resposta aparece apenas no fechamento do inventário, a empresa sabe que existe uma diferença entre o estoque físico e o registrado no sistema, mas não necessariamente quando o produto desapareceu, em qual circunstância, quem deveria ter respondido a um alerta ou se havia algum padrão recorrente naquela ocorrência. É uma lógica essencialmente reativa: a perda é percebida depois que já aconteceu e a operação muitas vezes não consegue reconstruir o contexto a partir dos registros disponíveis.

Prevenção de perdas exige velocidade, e um furto devidamente identificado no momento em que ocorre pode gerar uma resposta imediata, preservar evidências e permitir que a equipe compreenda o contexto da ocorrência. O mesmo evento descoberto semanas ou até meses depois, durante um inventário, oferece muito menos informação para orientar uma decisão. Por isso, câmeras, antenas antifurto e outros dispositivos precisam ser compreendidos como partes de uma estrutura maior. Isoladamente, cada tecnologia cumpre uma função; conectadas, elas ampliam a capacidade de compreender o que acontece na operação.

Da ocorrência isolada à inteligência preventiva

Essa evolução representa também uma mudança no modelo de gestão: a passagem de um varejo predominantemente reativo para um varejo mais responsivo. No varejo reativo, a empresa tende a agir depois que a perda já se concretizou, utilizando inventários, registros e ocorrências anteriores para entender o que aconteceu. Já o varejo responsivo busca identificar sinais de risco à medida que eles surgem, conectando dados, tecnologias e equipes para permitir uma resposta mais rápida e contextualizada. A diferença não está apenas na velocidade da reação, mas na capacidade de transformar informações da operação em inteligência para antecipar padrões, corrigir processos e reduzir a recorrência de perdas.

No cenário atual, diferentes soluções permitem que os varejistas atuem de forma mais inteligente e preventiva. Antenas EAS podem identificar um evento e emitir um alerta; CFTVs registram acontecimentos nos ambientes monitorados; sistemas de monitoramento facilitam o acompanhamento de diferentes unidades. A análise desses dados, por fim, permite identificar concentrações de eventos por loja, categoria, horário ou região.

O ganho está na possibilidade de cruzar essas informações. A integração entre EAS e CFTV, por exemplo, permite relacionar o disparo de uma antena ao registro visual da ocorrência. Assim, a equipe consegue compreender o contexto do evento e verificar como a situação foi conduzida, criando uma base mais consistente para decisões futuras.

Nesse sentido, atualmente no mercado, um modelo de prevenção inteligente de perdas, prevê a integração de tecnologias e busca proporcionar uma abordagem que amplia a visibilidade sobre a operação, permitindo que os varejistas tenham informações mais qualificadas para identificar riscos, acompanhar ocorrências e aprimorar processos.

A análise contínua, propiciada pela inovação, também ajuda a encontrar padrões que dificilmente seriam percebidos a partir de ocorrências isoladas. Determinados produtos podem concentrar eventos em horários específicos; algumas áreas da loja podem apresentar maior exposição; uma unidade pode registrar uma frequência de alertas muito superior às demais.

Com informações mais completas, a prevenção ganha indicadores capazes de orientar a operação. Frequência de eventos, tempo de resposta, reincidência, localização das ocorrências e efetividade das medidas adotadas passam a fazer parte da avaliação, permitindo acompanhar a evolução dos resultados com maior precisão.

Segundo a pesquisa da Abrappe e da KPMG, aliás, CFTV e RFID já são recursos amplamente utilizados, enquanto data analytics, análise de vídeo e inteligência artificial avançam como instrumentos para identificar comportamentos anômalos, automatizar alertas e mapear padrões de perda.

O desafio, portanto, não está apenas em ampliar a quantidade de equipamentos instalados nas lojas. Está em fazer com que essas ferramentas trabalhem de maneira coordenada e que as informações produzidas cheguem a quem pode agir sobre elas. Toda essa integração de dados e tecnologias só se traduz em prevenção real quando existem equipes preparadas para interpretar os sinais, priorizar riscos e agir com assertividade diante de cada ocorrência.

Essa capacidade também é importante para preservar a experiência de compra. Proteger mercadorias não significa transformar a loja em um ambiente de vigilância ostensiva, com mais barreiras ou abordagens indiscriminadas. Quanto mais precisa for a identificação dos riscos, mais direcionada pode ser a atuação das equipes de segurança. A tecnologia, em outras palavras, possibilita que o varejo concentre esforços nos pontos que efetivamente demandam atenção, enquanto o consumidor segue tendo uma experiência fluida e segura.

Para o mercado, essa mudança significa incorporar a prevenção de perdas à inteligência do negócio e avançar de uma lógica predominantemente reativa para uma gestão cada vez mais responsiva. O inventário continua essencial para medir resultados, mas não deve ser o primeiro momento em que a empresa percebe que algo deu errado.

Afinal de contas, quando o produto desaparece, o prejuízo já aconteceu. Mas, quando a ocorrência é identificada no momento em que acontece e seus dados são aproveitados pela operação, existe a possibilidade de compreender sua origem, corrigir processos e reduzir a probabilidade de repetição.

Prevenir perdas, portanto, não é apenas evitar que um produto saia da loja sem pagamento. É transformar cada ocorrência em conhecimento para agir melhor na próxima vez. Esse é o movimento que leva a prevenção de perdas de uma lógica reativa para uma gestão verdadeiramente responsiva.

*Vanessa Urbieta é gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave