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Papel estratégico das entidades setoriais na criação de políticas públicas

Confira dicas para as entidades setoriais colaborarem estrategicamente na elaboração de políticas públicas do país.

Por Daniel Keniti Sakamoto

Publicado em 5 min de leitura

Por Daniel Keniti Sakamoto*

As políticas públicas podem ser definidas como o conjunto de ações governamentais que produzem efeitos específicos na sociedade, ou então, como a soma das atividades dos governos – agindo diretamente ou por meio de delegação – que influenciam a vida dos cidadãos. É por meio das políticas públicas que o Estado participa da resolução dos problemas da sociedade, e a escolha estatal do que fazer e do que não fazer tem impacto direto na vida das pessoas. O renomado cientista político norte-americano Harold Lasswell (1902 – 1978) costumava dizer que as decisões e análises sobre as políticas públicas implicam responder: quem ganha o que, por que e que diferença faz.

O processo de formulação de políticas públicas é bastante complexo, mas pode ser compreendido a partir de dois elementos: a definição da agenda, que envolve o direcionamento da atenção dos atores políticos e sociais para questões específicas; e a definição das alternativas, que envolve a elaboração de um plano de ação para combater determinado problema público.

Ao pensar sobre esse assunto é inevitável questionar como os governos definem suas agendas ou por que algumas alternativas são consideradas e outras descartadas. Essas questões são fundamentais para cientistas políticos elaborarem suas teorias e análises, que sistematicamente incluem como elementos-chave os conceitos de poder, recursos disponíveis, influência, tomada de decisão e grupos de interesse.

A participação na formulação de políticas públicas deve ser prioridade para entidades setoriais e representativas, uma vez que se trata da forma mais consistente de executar a defesa dos interesses legítimos dos seus representados, sejam da indústria ou do agronegócio, sejam do setor de comércio ou de serviços, sejam micro e pequenas empresas ou empresas de grande porte.

Apesar da existência de uma série de variáveis relacionadas à definição da agenda e das alternativas, que vão desde a estrutura do sistema político brasileiro até o perfil ideológico do alto escalão dos poderes, é possível organizar a atuação das entidades setoriais de maneira estratégica para quem sejam mais efetivas na sua representatividade, contemplando os aspectos relevantes do processo de formulação de políticas públicas.

A partir da análise de experiências exitosas relacionadas ao setor empresarial, em nível federal, que incluem a aprovação da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas (Lei Complementar nº 123/2006), o fim da exclusividade de bandeiras em máquinas de cartão (regulamentação do Banco Central), a Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/17), a Lei do Cadastro Positivo (Lei nº 12.414/11 e Lei Complementar nº 166/2019), dentre outros exemplos, é possível identificar um padrão de atuação que pode ser apresentado na forma de estratégias interconectadas:

Identificação das demandas
A elaboração de políticas públicas tem sua essência na identificação de um problema ou entrave a ser superado. A melhor maneira de se identificar as demandas é coletivamente, considerando a diversidade e a amplitude do setor representado, dando voz a quem efetivamente sente as dores que se pretende tratar. Além de dividir as demandas de acordo com a sua alçada jurídica (questões municipais, estaduais ou federais) é importante utilizar alguma metodologia de priorização (ex: gravidade, urgência e tendência) para determinar o foco de atuação da entidade.

Estruturação das propostas
A partir do reconhecimento dos problemas e entraves prioritários é preciso formular alternativas e soluções que reflitam os interesses do setor representado, considerando todas as opções e analisando parâmetros como custo, benefício, probabilidade de êxito, efeitos colaterais, dentre outros. O ideal é que para cada problema haja uma lista de possíveis soluções. Neste sentido, as justificativas são tão importantes quanto as soluções apresentadas, e ambas devem ser tecnicamente, financeiramente e politicamente consistentes para aumentar as chances de êxito.

Mobilização
Não há nada mais efetivo para colocar um problema público na agenda governamental do que uma manifestação coletiva minimamente organizada. A mobilização setorial é importante no processo de identificação de demandas e estruturação de propostas, e fundamental para atrair a atenção do poder público, fazendo com que a política pública demandada passe a ser considerada nas esferas de poder. Ações de mobilização representativa geram credibilidade à demanda, maior assertividade nas propostas, atraem o interesse dos atores políticos e, muitas vezes, envolvem a sociedade na discussão.

Negociação com opositores
A legítima defesa de interesses junto ao poder público é um processo que envolve, invariavelmente, apoiadores e opositores. A busca por apoio a uma causa setorial é tão importante quanto a identificação daqueles atores que são contrários à causa, que podem se posicionar publicamente ou apenas nos bastidores, dificultando a atuação dos responsáveis pela articulação dos argumentos e construção de entendimentos. É preciso muita habilidade política para interagir com os opositores e identificar de que forma é possível eliminar ou mitigar os argumentos contrários à demanda em questão.

Articulação com os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário
O processo de formulação de políticas públicas envolve, direta ou indiretamente, os poderes da União, portanto, toda estratégia das entidades setoriais que pretendem participar deste processo precisa envolver a articulação com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e dependendo da demanda a atuação deve ocorrer em nível municipal, estadual ou federal. O relacionamento entre atores públicos e privados requer atenção com as formalidades necessárias, destacando sempre a publicidade das agendas e encontros. A credibilidade das entidades setoriais é tão importante quanto a de seus líderes e representantes, que devem priorizar sempre os interesses coletivos com o foco na solução de problemas públicos, atendendo a expectativa dos seus representados por meio de uma conduta pautada na legalidade e transparência.

Percebe-se, por meio das estratégias de atuação de entidades setoriais, a complexidade do processo de formulação de políticas públicas, mas ao mesmo tempo, é preciso ressaltar a importância deste tema para que os problemas públicos sejam identificados e priorizados, possibilitando que as melhores soluções sejam elaboradas e implementadas. Somente desta maneira, as entidades setoriais e representativas se manterão relevantes perante seus representados e terão reconhecimento por parte da sociedade.

*Daniel Keniti Sakamoto é gerente executivo da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e especialista em Políticas Públicas.